A SOLIDÃO AMIGA



O que sentimos quando é hora de voltar pra casa, depois do trabalho ou do estudo? Lar, doce lar? O silêncio do lar, onde é possível sentir-se sozinho. E alguns sentem a tristeza da solidão. Mas e quando o que mais se deseja é não estar em solidão?
Mas a tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Tem pessoas que gostam da solidão: ficar só ler, ouvir, música... Às vezes se programam para uma noite de solidão feliz. Porém, quando se acomoda para iniciar sua programação, iniciam-se também as fantasias (cenas). De um lado, amigos em festas felizes. De outro, o “ser” sozinho. Imaginando que ninguém percebe sua ausência. 

É nessa hora que a tristeza entra, fazendo a solidão se transformar em rival, aquela que antes era amiga, que permitia se dedicar a coisas particulares, sentimentos esquecidos e tarefas adiadas.
Quando o remédio é fugir da solidão, o alivio é efêmero. Ao chegar na festa, ao encontrar o barulho vindo de fora, outra tristeza chega. O entristecer que permite ver o real. O que se encontra do lado de fora, não é a festa imaginada, nem o baile da fantasia. São vários sons vindos de todos os lugares, vozes que se encontram, palavras ao vento.
As festas reais são desencontros daqueles que tentam compartilhar sua solidão. Noites perdidas, lugares cheios, mentes vazias. Olhares quentes, corações frios.
A solidão é como a chama de uma vela, como disse Bachelard. “Sozinha que só ela”, mas que cria ao seu redor, um círculo de claridade que não perturba a verdade da sua alma. Mas é preciso não se perturbar com suas verdades, que só podem ser ouvidas no silêncio da solidão. É quando nos encontramos.
Na verdade é na solidão que tudo se encontra. As comunhões não acontecem em festas. Elas acontecem ironicamente, na ausência do outro. Quando sentimos a ausência tudo fica mais próximo. Quem ama sabe disso, tem o coração sensível e os valores fortes.
É como se a chama da vela, de tão mansa, apenas ela pudesse iluminar os cantos escuros dentro de nós, onde se escondem objetos que não aparecem na multidão. A solidão as vezes, pode ter vida própria dentro da gente, então é preciso aprender a se comportar com ela.
Lamentar sua solidão, diz que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga. Então quer se livrar dela, mas as coisas são os nomes que lhe damos. Se pensar nela como sua inimiga, ela te deixará machucado. Se olhar para ela como sua fiel companheira, ela será a ausência que permite que você realmente esteja em si.
As pessoas querem estar juntas, mas não param de falar um minuto, não suportam ouvir a natureza do outro. Estar juntos não é comunhão, as vezes, é uma forma terrível de solidão, de evitar o contato com sua própria natureza.

A melhor solidão é a solidão de ser diferente. E essa tristeza não se pode compartilhar, pois as pessoas próximas não compreenderiam. Os caminhos solitários são os que nos fazem fortes, pois nos permite buscar o que para nós faz sentido. Cuidar de sí e transformar em belo o que te deixa só.




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