Leiam o trecho de uma das crônicas de Rubem Alves onde ele fala
um pouco sobre crenças, deuses, Deus....
um pouco sobre crenças, deuses, Deus....
Enfim fala um pouco de cada um de nós, e o que acontece quando conseguimos olhar para nós mesmo e nos entender... E nos aceitar, aceitando assim o outro.
" Faço meus poemas sobre um vazio, o meu vazio. Não conheço nenhum outro. Em obediência a um mandamento sacramental: que o pão fosse comido e o vinho fosse bebido na dor da ausência. A magia não está nem no pão, nem no vinho, mas nas palavras que dizem a tristeza da falta. O sacramento celebra a ausência de Deus, ele enuncia os limites dos espaços de espera que se dilatam dentro de mim, eroticamente.
É a ausência que me excita.
Ou, nas palavras desta teóloga ímpar, a Adélia Prado: ‘Entre as pernas geramos e sobre isso se falará até o fim sem que muitos entendam: erótico é a alma.’
Será isto que é a alma, a ausência que mora em mim, e faz o meu corpo tremer? Não me canso de repetir esta coisa linda que disse Valéry: ‘Que seria de nós sem o auxílio das coisas que não existem?’
Estranho isto, que o que não existe possa ajudar...
Deus nos ajuda, mesmo não existindo: este o segredo da sua onipotência.
Teologia é um encantamento poético, um esforço enorme para gerar deuses...
Que deuses?
Os meus, é claro.
São os únicos que me é permitido conhecer.
Lembro-me de Feuerbach. Compreendeu que estamos destinados ao nosso corpo, especialmente os olhos.
Vemos. Mas em tudo o que vemos encontramos os contornos da nossa própria nostalgia, o rosto da alma.
Como Narciso, que se enamorou de sua própria imagem, refletida na superfície lisa da fonte. Também nós: o universo sobre que falamos é a imagem dos nossos cenários interiores. Com o que concorda a psicanálise, e antes dela o Evangelho: a boca fala do que está cheio o coração.
Nossos deuses são nossos desejos projetados até os confins do universo.
‘Se as plantas tivessem olhos, capacidade de sentir e o poder de pensar, cada uma delas diria que a sua flor é a mais bela’.
Os deuses das flores são flores. Os deuses das lagartas são lagartas. Os deuses dos cordeiros são cordeiros. E os deuses dos tigres são tigres...
Tudo é sonho. Ou, como diz Guimarães Rosa: ‘Tudo é real porque tudo é inventado.’
Também o real é uma invenção...
E o mágico é isto: que o corpo, desprendendo-se das ligações que o prendem àquilo que é, possa ser possuído por aquilo que não é. Aquela coisa pesada, que se arrastava desajeitadamente pelo chão, repentinamente fica leve, transparente, utópica, ao vento. E assim, as coisas que são, é como se não fossem; e as coisas que não são, é como se fossem. (1 Cor. 1:28-29).
Teologia é um brinquedo que faço.
É possível plantar jardins, pintar quadros, escrever poemas, jogar xadrez, cozinhar, fazer teologia... Claro que um jogo não exclui o outro. Alguns dirão que isto não é coisa séria.
Eu os conheço muito bem e já havia advertido o leitor contra eles.
Quem se leva a sério é, no fundo, um inquisidor. Está só à espera de que a ocasião apareça.
As grandes atrocidades que se cometeram contra as pessoas foram todas levadas a cabo com espírito grave, com um senso de missão, de salvação do mundo.
O diabo está sempre vestido de paletó e gravata e, a se acreditar em Nietzsche, ele nem sabe contar piadas e nem sabe dançar: é o espírito da gravidade. Já com Deus é o contrário, porque a oração começa com o riso."
Rubem Alves, in: http://www.rubemalves.com.br/sobredeusesecaquis.htm

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