*Érica
Flávia Motta
Quando o amor apresenta aspectos
destrutivos da dependência amorosa, as repercussões na vida dos envolvidos
trazem sofrimento psíquico, ansiedade e a mudança de uma rotina funcional para
uma disfuncional. O amor desmedido possui características de qualquer outro
vício, e precisa de um olhar diferenciado de outras patologias, pois em muitos
casos a dependência é o único recurso que a pessoa pode usar para não perder
por completo a saúde psíquica.
Alguns relacionamentos amorosos conflitantes,
podem ser derivações da dependência afetiva que revela como a pessoa se apoia e
confia no outro para sua existência. Se a afetividade é construída desde as
primeiras fases da vida, qualquer quebra nas relações desse período pode
influenciar negativamente em todas as relações futuras.
Nem sempre as pessoas conseguem lidar
com o fato de estar só e veem no outro a esperança, mesmo que a relação esteja
completamente fadada ao insucesso e o rompimento eminente. O apego acaba
gerando mais sofrimento e um gasto dispendioso de energia, transformando os relacionamentos
no “mal de amor”.
Tal dependência afetiva se assemelha a
fatores associados à dependência química, uma vez que envolve a adoção
patológica de um objeto na tentativa frustrada de lidar com seus conflitos
psíquicos. Mas nesse caso, esse objeto não é uma substância química, e sim uma
pessoa que passa a carregar o peso de ser o significado bom ou mal da vida de
outro.
A relação baseada em dependências
mostra com clareza como as pessoas envolvidas internalizaram seus objetos
primários e até que ponto necessitam compensar as suas faltas. E evidencia
também o conflito profundo entre a expectativa criada pelo amor idealizado e o
amor real.
Nesse conflito, a pessoa dependente
está, emocionalmente, sempre diante de suas primeiras aspirações infantis
embasadas pelo amor que vivenciou em sua família, transferindo e idealizando as
vivências com os parceiros atuais. E, de tal forma, o desfecho é sempre o
mesmo, frustração e sofrimento, por querer forçar uma situação ou um modo de
ser que não corresponde à realidade, e sim a uma fantasia gerada no
inconsciente.
Entende-se então, que todo vínculo tem
interferência das relações primárias e do contexto familiar, e deseja-se sempre
um amor ideal, mas o processo de maturidade exige uma adequação das fantasias à
realidade.
Se entregar desmedidamente por amor ou
qualquer outra paixão pode gerar uma perda e não uma vantagem, pois se baseia
também na passividade e na falta de controle de si próprio. Desse ponto pode
ser difícil reencontrar-se novamente, já que está tomado por ansiedades, a
pessoa pode erguer barreiras poderosas ao invés de fronteiras, o que não
permite reconhecer uma possível experiência de entrega emocional verdadeira.
Há pessoas que entram em fusão excessiva
com o outro, por não poderem ter vivido tal fusão de forma satisfatória na
relação primordial com a mãe, e nos relacionamentos atuais geram um
deslocamento de afetos maternos, vivenciando todas as consequências, tanto no
tempo da relação como nas separações, que tendem a ser drásticas e
avassaladoras, levando à violência, à depressão e à conexão com o medo de
perder sua própria sensação de ser alguém no mundo, separado do outro.
Depender da pessoa que se ama é uma
forma de se enterrar na vida, entregando seu amor-próprio a alguém, para que
este tome conta. Feito isso é inevitável a expectativa de retribuição eterna,
ideia de que a pessoa está sempre em falta e a necessidade de querer sempre
mais, pois por mais que se receba, sempre parece ser insuficiente. E a sensação
pode ser de constante abandono. Por isso é de vital importância o investimento
de tempo energia e dedicação na busca do autoconhecimento e da independência moral
e emocional.
*Érica Flávia Motta –
Psicóloga. CRP:06/103497. Duvidas ou sugestões: ericaflaviapsico@hotmail.com /
14-97621502.

Ótimo texto!
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